Kai mordiscou o canto do polegar ao observar o quadro de notas pendurado na parede do outro lado do pátio. Não queria ver, embora soubesse que não adiantava postergar. Puxou o ar com força e soltou aos poucos enquanto se aproximava da parede apinhada de alunos, todos desesperados para saber se tinham passado de ano ilesos.
Algumas meninas saíram dando gritinhos animados, e Kai pôde se aproximar da cortiça envelhecida coberta por infindáveis listas. Correu os olhos com certa urgência, até encontrar a folha do segundo ano.
Foi um baque, ainda que não tão inesperado.
Língua portuguesa, matemática, história, filosofia, química e, para assinar seu atestado de irresponsável, artes. A impressão na cor vermelha não disfarçava. Recuperação. A única matéria em que passou com louvor foi educação física, 98 pontos.
O aviso em letras garrafais esbravejava que o início das provas de recuperação seria na quarta-feira. Era segunda. Kai soltou um riso amargo. Estava lascado.
— Pô, Kai! Suas notas só não estão mais vermelhas do que a sua cara depois daquela briga com o Carlão — zombou Marcos, um rapazinho magricela que, na opinião de Kai, se achava mais do que devia. Os garotos ao redor começaram a rir. Kai cerrou os punhos e deu as costas, antes que acrescentasse mais uma atitude estúpida a sua lista.
— Foi a briga mais lendária que já aconteceu neste pátio! Vocês lembram? Só não sei se o Kai gosta de lembrar…
Kai contraiu o maxilar e começou a se distanciar. Ele só está provocando porque sabe que não posso reagir… A coordenadora falou para todo mundo ouvir, da última vez, que se eu me metesse em mais uma briga levaria suspensão. E eu não posso ser suspenso na semana da recuperação… não posso…
— Cadê o valentão, hein? Uh!
As gargalhadas o alcançaram como flechas. E, num instante, todos os pensamentos evaporaram de sua mente. Ah, dane-se! Kai virou-se de repente e foi até Marcos. Com a raiva pulsando nos ouvidos, enterrou um soco no rosto dele e ouviu o coro ao seu redor iniciar: Briga! Briga! Briga!
— Quatro dias?! — Kai abriu as mãos, incrédulo. — Eu vou perder praticamente todas as provas de recuperação!
Atrás de sua mesa cheia de pastas e documentos, Fátima, a diretora, observou o garoto de cabelos loiros desalinhados e suspirou.
— Você deveria ter pensado nisso antes de se envolver em outra confusão.
— A senhora não entende — Kai passou as mãos pelo cabelo, desarrumando-o ainda mais. — Não entende…
— O que eu não entendo, Kai? Você vem se metendo em muitas encrencas, e não é de hoje! O que esperava que eu fizesse? — A diretora lhe estendeu um pequeno papel. — Marquei uma reunião com seus pais amanhã, às dez horas. Entregue a eles o bilhete, por favor.
Kai sentiu a cor sumir do rosto.
— Eles não podem vir. Trabalham o dia inteiro, sabe?
— Na última vez seu pai disse que estaria disponível sempre que o chamássemos.
O suor brotou na testa dele junto com uma nova desculpa:
— Mas hoje é dia dois de dezembro, diretora. O ano está quase acabando. Pra que marcar reunião com pais a essa altura?
— Mas hoje é dia dois de dezembro, Kai. O ano está quase acabando. Pra que arrumar briga no pátio da escola a essa altura? — Fátima repetiu a frase em tom afetado.
Kai colocou a mão na boca, mas o som estranho de riso reprimido encheu a sala. A diretora também não conseguiu segurar uma risada e, em seguida, balançou as mãos abertas para o alto.
— O que eu faço com você, menino?!
Esquece que eu briguei no pátio?, Kai pensou em dizer, mas, sabendo que alívio cômico tinha limite, resolveu arrumar algum assunto enquanto não pensava em outra forma de tentar mudar a decisão de Fátima.
— Marcos também levou suspensão?
O garoto havia sido atendido pela diretora antes dele e saído da sala sem sequer olhar para os lados.
— Os dois receberam a mesma penalidade. A diferença é que Marcos passou direto, então hoje foi seu último dia na escola este ano. De qualquer forma, os pais dele também virão amanhã.